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Os emails continuaram por algum tempo. Lorita não sabia ao certo como alguém que ela acreditava mal conhecer poderia completá-la daquela maneira.
Ele parece ler meus pensamentos, antecipar minhas questões, minhas dúvidas.
Os dias foram se passando e os dois continuavam se falando, ou melhor, se escrevendo. Trocavam informações sobre a vida, comentavam sobre a saudades que sentiam do Brasil. Sim, também era mais um brasuca que foi tentar ganhar a vida além mar.
Quando percebi já estava envolvida. Sentia a necessidade de receber aqueles emails. Se ele demorava para me responder parecia que o mundo saia de sintonia, alguma coisa estava errada.
Essa história continuou por uma semana. Emails e mais emails, até que Arthur – sim, demorou algum tempo, mas acabei descobrindo o nome dele – disse que trabalhava no mesmo prédio que Lorita.
Foi aí que as coisas começaram a tomar uma proporção assustadora. Comecei a andar pelos corredores tentando adivinhar quem era aquela pessoa que me fazia companhia todos os dias mesmo que a distância. Quem era aquele ser que parecia me conhecer mais do que eu mesma.
Lorita tinha muita vontade de conhecer Arthur, mas ao mesmo tempo, morria de medo de se decepcionar e perder algo que lhe fazia tão bem.
Não me importa qual sua aparência, mas preciso conhecê-lo antes que eu enlouqueça.já não consigo mais ficar longe do trabalho, e não é mais por prazer, mas sim pela necessidade de falar com ele.Pode parecer besteira, mas ele já está incorporado em minha vida e sinto que ele também acha o mesmo. Cada dia ele vem com uma novidade ou com alguma coisa que precisa dividir comigo.
Preocupada com o que poderia acontecer com minha amiga, resolvi incentivá-la a ocupar a cabeça com outra coisa, já que aquela situação parecia fugir de seu controle. Disse que ela deveria parar de trocar emails e seguir a vida. Sair mais com os amigos, buscar coisas para fazer.
Obviamente ela não seguiu meu conselho – acho que eu mesma não seguiria – porém Lorita estava decidida: ia tomar coragem e marcar um encontro.
No dia seguinte, a mesma cena se repetiu: Lorita chegou no trabalho, correu para o computador e, como era de costume, Arthur havia lhe enviado um email cujo título era aparentemente assustador , ele dizia “acabou!”.
Não sabia o que fazer, o que pensar e nem como agir. Fiquei uns 10 minutos olhando para aquele email sem coragem de abri-lo. Todos os tipos de pensamentos passavam em minha cabeça. Fui até a cozinha, tomei um gole de café como se estivesse tomando uma dose de coragem e voltei para minha mesa.Abri o email e, para minha surpresa, Arthur estava sugerindo um encontro, ele dizia que não agüentava mais ficar conversando pela internet – mais uma comodidade da era moderna como ele costumava dizer – e que era chegada a hora de “enfrentarmos nossos medos e nos encontrar pessoalmente”.Porém, antes disso ele precisava me contar uma coisa, algo que poderia mudar minha opinião e que poderia me fazer não querer ir ao tal encontro. Foi então que fiquei mais aterrorizada ainda. Mais do que depressa respondi o email dizendo que não havia nada que ele pudesse me contar que me faria mudar de idéia.
Eu podia imaginar a quantidade de coisas que passavam pela cabeça de minha pobre amiga. Acredito que nem o maior dos escritores de romances impossíveis poderia ter imaginado a quantidade de coisas que Lorita pensava naquele momento.
Ele demorou a me responder, os minutos iam se passando e eu ficando cada vez mais nervosa. Como uma pessoa que me fazia tão bem, de repente acabou me fazendo sofrer tanto assim?
Finalmente recebo uma mensagem: ‘me encontre no bistrô que você docemente se senta todas as manhãs para tomar uma xícara de café’. Não sabia o que fazer, respondi o email dele perguntando como saberia quem ele era, mas nada. Não recebi mais nenhum email durante o dia inteiro. O dia parecia não ter fim, nunca demorou tanto para chegar o fim do expediente quanto naquela quarta-feira cinzenta.
O dia inteiro eu recebia mensagens de Lorita, ela estava aflita, com medo, temerosa do que seria essa ‘coisa’ que Arthur lhe contaria que a faria parar de falar com ele. Mesmo a distância, eu tentava acalmar minha amiga, afinal, é para isso que servem os amigos. De repente, recebo um último email:
Finalmente chegou a hora, torça por mim, mon amie.
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Março 24, 2008 às 1:46 pm
Em verdade, hoje fiz diferente…talvez, tal como você.
Acordei com disposição mediana, mas adequei-me a necessidade do meu dia.
Correto seria dizer “a nosso dia”, pois há um acordo entre a rotina de minha esposa e filho, e meu mundano cotidiano.
Com esta disposição, aprontei-me para uma nova semana.
Fiz-me, logo ao sair, a proposta de melhorar algo em mim…só por hoje .
Uma ação qualquer, mesmo que não fosse eu o privilegiado.
De alguma forma teria que acrescentar algo ao quarto úmido e levemente trevoso onde acumulo minhas experiências e conhecimentos.
Tenho a impressão de ser este o estado deste meu cubículo, pois me parece que pouco o freqüento, tendo eu ciente aversão a lugares como o descrito.
E se não o freqüento, utilizo mal o que ao longo de 23,5 anos lapidei.
Ocorre que optei por ser uma pessoa só durante o dia inteiro.
Isso com certeza requer de mim assombroso esforço, pois ao volante, por exemplo, sou possuído por microorganismos que residem no banco do meu carro e submetem a minha personalidade ao formado de uma depressão rasíssima na qual concentro minha paciência.
Geralmente, entrego-me ao desespero ao imaginar o pouco que as pessoas almejam da vida, considerando que o tempo gasto até o ponto de destino é desperdiçado ao longo do trajeto. Pessoas que tratam com descaso os pequenos movimentos, que em cadeia poderiam desobstruir inúmeras vias.
Absurdo talvez, seja o fato de eu assimilar minha paranóia aos incógnitos desejos humanos, bem como necessidade, levando-me a crer que as pessoas são meros objetos ocos que não supõem sobre o deleite de viver.
Pois é, o fato é que hoje decidi encarar esse meu transtorno como uma mera tempestade que faço num copo d’água e aceitar a limitação dos estúpidos motoristas com quem, indiretamente, convivo.
Só por hoje também, pretendo me certificar de que esse foi meu primeiro passo…
Acredito que não dure mil e uma noites…mas é impressionante como os escritores se apegam a este artifício para fidelização de seus leitores.
Não creio ser de seu feitio horrorizar a aparência do pobre coitado, tornando-o por exemplo, num corcunda francês…
Talvez ele trabalhe numa cafeteria ou seja surdo e mudo…
Para seu governo, não vou criar expectativas…mas trate de terminar a história logo…
Março 24, 2008 às 7:43 pm
Cássia,
A historia ta ficando ótima! Estou emocionado!