Além das entrelinhas

Dois desconhecidos. Uma troca de olhares. Um diálogo frenético sem que uma só palavra sequer seja dita. Uma sintonia inexplicável. As mãos começam a se tocar. Os corpos se aproximam e os lábios se entreabrem ao mesmo tempo em que os olhos se fecham.
A química é cada vez maior e aparente que as palavras não surgem. Na verdade elas parecem inúteis, pois há muito mais coisas sendo ditas do que se pode imaginar. A aproximação é cada vez maior até que o inevitável acontece: os lábios se tocam.
As mãos deslizam suavemente pelo abraço com uma delicadeza desbravadora. Os dedos desenham uma trilha silenciosa e vão parar na nuca, escondidos atrás do cabelo. Os braços se entrelaçam e a sensação de aconchego e conforto faz que os olhos consigam enxergar mesmo ainda estando fechados.
Quanto mais o tempo passa, mais os corpos se entendem e sentem vontade de estar juntos, tão juntos que parecem desejar se tornar um só. Essa necessidade é tão grande que tudo o que se torna empecilho é tirado do caminho.
As batidas do coração aumentam. A respiração fica ofegante. O barulho se mistura a outros sons e a melodia parece se completar. A sensação de bem-estar e estase é tão grande que o chão parece sumir.
A busca pelo desconhecido e o interesse em desbravá-lo faz com que as mãos se percam em movimentos delicadamente bruscos, que continuam a desenhar seu caminho por entre as gotas de suor que escorrem na mesma proporção que a intensidade dos movimentos aumenta.
Palavras? Para quê? Apenas alguns sons são balbuciados por entre os lábios já ressecados. Como se fossem a lente de uma câmera, os olhos se abrem e registram cada segundo para que fiquem guardados na memória.
Não há certo nem errado. Nada é ensaiado ou previamente combinado. Não há tempo para pensar. O improviso liberta as borboletas que pareciam estar presas no estômago e causavam um friozinho excitante.
Exaustão, estase, cansaço, desejo, euforia, paixão. São incontáveis as sensações e sentimentos que afloram e se misturam. Nessa hora, nada mais existe. O tempo parece não passar. Na verdade, não importa saber que eventualmente tudo isso chegará ao fim. Cada toque, cada carícia, cada momento ficará guardado, eternizado por uma música, um gesto, um cheiro. E toda vez que ouvirmos, vermos ou sentirmos, lembremos daquele encontro perfeito de almas que, por um momento, foram uma só.

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